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19 de agosto de 2022

Faxineira aprende a escrever aos 50 anos e vence concurso de poesia


Por Reportagem Publicado 09/11/2021

Nilza Marques, de Venâncio Aires, começou a luta pela vida aos 7 anos, pelo cabo da enxada, e agora empunha a caneta para recomeçar

A briga de Nilza Marques pela vida começou pelo cabo de enxada aos 7 anos, na roça de uma comunidade distante do centro de Passo do Sobrado. Ela cresceu com oito irmãos, dividiu com a mãe a responsabilidade por eles e aos 12 anos foi para a cidade para não passar fome. Trabalhou de babá em Santa Cruz do Sul, e quando a idade permitiu enfrentou a esteira de uma fumageira em Venâncio Aires. Durante o dia carregou fardos de tabaco e à noite cuidou dos filhos de outra pessoa. O estudo considerava pertencente aos outros. De papel, até então, apenas a fragilidade dos seus direitos.

Aos 50 anos, Nilza recomeçou. A partir do incentivo de uma família para quem trabalhou, virou aluna da Educação de Jovens e Adultos (EJA) da Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Dois Irmãos, de Venâncio Aires.

Quatro anos se passaram e seus olhos passaram a revelar mais do que antes. O destino dos ônibus passou a ficar claro na frente do ônibus. Os preços dos alimentos foram revelados. E a alfabetização a fez entender e escrever seu passado.

A briga pela vida, marcada no papel com a ajuda da professora Silvania Carvalho, foi o início do recomeço, palavra que estampa a parte mais alta do poema vencedor do 12º Concurso Literário de Venâncio Aires, realizado durante 22ª Feira do Livro.

“Aprendi muita coisa e quero aprender muito mais”, declara Nilza, que tem o apoio de colegas e dos chefes do laboratório Gassen, de Venâncio Aires, onde trabalha como faxineira. “Tenho muito a aprender no EJA, mais dois ou três anos, e depois eu vou pensar no próximo passo. Se eu tiver forças quero aprender muito mais”.

“O prêmio representa a grandeza da pessoa”

Leila Gassen, sócia-proprietária do laboratório, é testemunha do esforço de Nilza. Para ela, esse prêmio representa a grandeza da pessoa. “Nesta idade conseguir trabalhar e se esforçar tanto, de onde ela veio, é admirável”, declara. “Um esforço tremendo pra chegar onde chegou”, finaliza.

Nilza Marques e Leila Gassen

Leia a poesia de Nilza

“Recomeçar

Meu nome é Nilza, minha história vou contar

Com 7 anos apenas, comecei a trabalhar

Isso me afastou da escola e não pude mais estudar.

Por ser de família humilde, aos 12 anos fui trabalhar

Em uma casa de família, como babá.

Por sair cedo da escola

Não aprendi a ler

Cresci, e meu sonho

Achava que não ia acontecer

Foi então que um certo dia

Em uma casa fui trabalhar

Por não saber assinar meu nome

Minha patroa quis me ensinar

Apesar de ser difícil

Tinha vontade estudar

Meu horário não fechava

Por isso ficava a esperar

Até que um certo dia

Meu horário mudou

Fui na escola Dois Irmãos

E a vice diretora me matriculou

A partir daquele dia

Minha vida mudou

Estou aprendendo a ler

E a escrever como sou

Hoje leio Bíblia

Faço nota do mercado

Leio o preço das coisas

E tudo se transformou

Tenho certeza que ainda, muito vou aprender

Tenho 54 anos, muitos livros quero ler

Como diz nosso poeta, nunca é tarde para aprender.

Ouvi poemas de Bráulio Bessa

Que a professora levou

Vi que a leitura aproxima

E isso me motivou.”

Nilza Marques

Reportagem: Leonardo Heisler/Agora no Vale

Colaboração: Cristiano Wildner/Folha do Mate