Ao clicar em "Continuar navegando", você concorda com o uso de Cookies e com a Política de privacidade do site.

Crescimento dos data centers pode afetar projetos de hidrogênio verde no Brasil


Por Redação Publicado 18/06/2026
Ouvir: 00:00
HidroVerde2_Eric Data Centers

A corrida global por inteligência artificial, computação em nuvem e processamento de dados está criando um novo desafio para a estratégia brasileira de transição energética. Segundo o especialista em energia limpa, transição energética e mudanças climáticas Eric Fernando Boeck Daza, a crescente demanda dos data centers por conexão à rede elétrica pode comprometer o desenvolvimento de projetos considerados estratégicos para a reindustrialização verde do país, como a produção de hidrogênio verde, amônia e combustíveis sustentáveis.

O alerta surge após o encerramento, em 15 de junho, do cadastramento da primeira Temporada de Acesso, mecanismo criado para organizar o ingresso de novos consumidores e empreendimentos em uma rede de transmissão que já apresenta limitações de capacidade em diversas regiões do país.

Dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) apontam que os pedidos de conexão de data centers somavam 26,3 gigawatts em outubro de 2025, volume muito próximo dos 27,9 gigawatts destinados a projetos de hidrogênio e amônia. Juntos, os dois segmentos ultrapassam 54 gigawatts em solicitações de acesso à rede.

Para Daza, o desafio não está apenas na expansão da infraestrutura elétrica, mas também na forma como o acesso está sendo definido. “A regra atual prioriza quem oferece o maior valor financeiro pela conexão. O problema é que nem sempre quem pode pagar mais é quem gera mais benefícios econômicos, industriais e sociais para o país”, afirma.

Segundo o especialista, os projetos de hidrogênio verde possuem uma dependência muito maior do custo da energia elétrica para serem competitivos. Em alguns casos, a eletricidade representa entre 50% e 70% do custo final da produção. Já nos data centers, especialmente aqueles voltados à inteligência artificial, a energia responde por uma parcela significativamente menor dos custos operacionais.

“Os data centers podem absorver custos maiores para garantir sua conexão porque seu modelo de negócios gera receitas muito elevadas por megawatt consumido. Isso cria uma vantagem competitiva natural em disputas por acesso à rede”, explica.

Daza destaca que a discussão não deve ser tratada como uma escolha entre setores, mas sim como uma reflexão sobre o retorno que cada projeto entrega ao país. “O Brasil precisa avaliar não apenas quem paga mais pela conexão, mas também quem agrega mais valor à economia, gera cadeias produtivas, empregos e desenvolvimento regional. O hidrogênio verde, quando utilizado para produzir aço verde, fertilizantes ou produtos químicos, tem potencial de impulsionar uma série de atividades industriais associadas”, observa.

Na avaliação do especialista, a solução passa pela criação de critérios complementares ao preço, capazes de considerar aspectos como geração adicional de energia renovável, capacidade de armazenamento, localização estratégica dos empreendimentos, eficiência no uso dos recursos e contribuição para o desenvolvimento regional.

“O país construiu uma narrativa consistente de que sua abundância de energia limpa seria uma vantagem competitiva para atrair novas indústrias e promover a reindustrialização sustentável. Agora estamos diante do primeiro grande teste desta estratégia. A decisão sobre quem terá acesso à rede não é apenas uma questão técnica. É uma decisão que impactará o futuro econômico e industrial do Brasil”, conclui.

Para Daza, o avanço simultâneo da economia digital e da transição energética exige planejamento de longo prazo e uma visão estratégica capaz de equilibrar diferentes interesses, garantindo que a energia limpa brasileira se transforme efetivamente em desenvolvimento econômico, geração de empregos e competitividade internacional.

Sobre Eric Daza

Eric Fernando Boeck Daza é especialista em energia limpa, transição energética, mudanças climáticas e segurança energética, além de CEO da Meridian Climate & Energy Advisory. Com mais de 15 anos de experiência internacional, já colaborou com governos de mais de 20 países, organismos multilaterais como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e agências das Nações Unidas, contribuindo para o desenvolvimento de estratégias de transição energética, descarbonização e financiamento climático.

Ao longo de sua trajetória, atuou em iniciativas voltadas à formulação de roadmaps nacionais de energias renováveis, ao fortalecimento de cadeias de valor em hidrogênio limpo e à construção de mecanismos de financiamento para acelerar a transformação energética. Fluente em português, espanhol e inglês, é presença frequente em conferências e fóruns internacionais, onde defende uma transição energética justa, competitiva e conectada aos desafios do desenvolvimento econômico e da adaptação às mudanças climáticas.

Sobre a Meridian

A Meridian Climate & Energy Advisory é uma consultoria especializada em descarbonização, financiamento sustentável e estratégias para a economia de baixo carbono. Com base no Brasil e atuação na América Latina e Caribe, atende governos, empresas e instituições multilaterais em projetos de transição energética, hidrogênio verde e crédito de carbono.