Mestre escolhe Lajeado como lar e dissemina capoeira pela região

Mais conhecido como “Karkará”, Paulo Renato Narciso, 60, aprendeu a capoeira em Porto Alegre, se especializou na Bahia e chegou a levar a arte marcial brasileira até a Europa. Mas foi Lajeado que o mestre acabou desenvolvendo as principais ações.
Ele chegou à região em 1994 após um convite para dar aulas em Lajeado nos fins de semana. O primeiro treino foi no Parque do Imigrante com a participação de cerca de 30 pessoas. Com o número de adeptos aumentando, Karkará se mudou de vez para a cidade.

“O pessoal me recebeu muito bem. Até dormia na casa de alunos antes de conseguir uma quitinete para alugar”, recorda.
No decorrer dos anos, as aulas de capoeira que iniciaram em Lajeado se espalharam por vários municípios da região. Karkará estima que mais de 30 mil pessoas treinaram com ele nas quase três décadas no Vale do Taquari.
“Ver aqueles adolescentes que treinei se tornarem pais de família, ainda lembrarem de mim e me agradecerem nas ruas é uma satisfação”, comenta.
Atualmente, Karkará tem uma academia no bairro Florestal e leva a capoeira para as escolas de Lajeado através de projetos como o “CapoEducando” em parceria com o governo municipal.
Interessados em mais informações podem contatar o Mestre Karkará pelo WhatsApp 51 99949-8231.
Passagem pela Europa
Natural de Porto Alegre, Karkará conheceu a capoeira ainda na infância e se interessou pela arte marcial por gostar dos filmes do Bruce Lee. Sem dinheiro para pagar as aulas, tentava imitar os movimentos que via dos capoeiristas.
A oportunidade de iniciar os treinamentos surgiu quando um amigo havia pago os treinamentos, mas desistiu. Karcará se dispôs a ir em seu lugar.

Com dedicação e anos de treinamento, Karcará aprimorou as técnicas. Vendo o desenvolvimento, o mestre Manoel Olímpio de Souza, o “Índio”, o convidou para dar aulas pelo grupo Oxóssi.
Assim, o capoeirista começou a criar o grupo de alunos. Com o tempo, se formou professor e mestre no Mercado Modelo, da Bahia.
Na década de 80, o mestre gaúcho viajou por mais de 15 países europeus para disseminar a capoeira no velho continente. Grupos de treinos criados por ele seguem em atividade até hoje na França, Itália e Alemanha.
Pela dedicação à arte marcial brasileira, Karkará recebeu prêmios como o Berimbau de Ouro e é reconhecido como mestre de capoeira pelo Conselho Superior de Mestres.
Entrevista
Agora no Vale – Por que o apelido Karkará?
Mestre Karkará – No início eu era muito afim da arte marcial. Tinha o ímpeto de chutar e derrubar. Eu nem gingava, meu mestre até me xingava. Antigamente, tinha visitas de academias e eu sempre estava na linha de frente. Então dei um chute num cara e ele caiu desmaiado. Outro dia, fomos para Curitiba e desmaiei outro. Dai disseram que eu parecia uma carcará: pega, mata e come. Assim ficou.

Agora no Vale – Qual a diferença entre a capoeira e outras artes marciais?
Mestre Karkará – A capoeira está sendo descoberta como luta. Por dar salto moral, piruetas e fazer firulas, o pessoal achava que era só dança. Hoje no MMA, já tem uns caras da Bahia, Recife, lutando o MMA apenas com a capoeira. Essa é uma defesa pessoal, uma resistência cultural e uma forma de ancestralidade que surgiu durante o processo escravocrata. A capoeira promove uma integração no mundo e já está em 180 países. Como na capoeira só pode cantar em português, isso difunde a nossa língua.
Agora no Vale – O que diria para convencer alguém a praticar a capoeira?
Mestre Karkará – A capoeira ajuda a trabalhar o corpo e a mente. Te dá equilíbrio, proporciona conhecer novas pessoas e uma cultura brasileira que não se ensina nas escolas. Dá para ser percursionista com a capoeira, tocar pandeiro. Pode ser um músico, tocar berimbau e cantar. Além de aprender uma defesa pessoal, ter autocontrole e perder cerca de 700 a 800 calorias por aula.
Agora no Vale – Algum momento marcante na trajetória?
Mestre Karkará – A capoeira me fez fazer um passaporte, pegar um berimbau e ir até a Europa num Boeing atravessando o oceano. Conheci vários países, tive que aprender outros idiomas na marra.





