Conheça a história do árbitro mais famoso do futebol amador regional

Mais conhecido como “Taxa”, Jorge Luís de Freitas, apitou mais de dois mil jogos em 36 anos. Nos campos amadores e quadras de futsal da região, o morador de Lajeado se tornou respeitado mesmo exercendo uma das profissões mais questionadas do mundo esportivo.
Taxa é filho mais velho de cinco irmãos. Influenciado pelos tios, ele entrou na arbitragem para ganhar renda extra e auxiliar a colocar comida na mesa da família natural do bairro Conservas.
O convite inusitado para apitar o primeiro jogo foi feito por Wolmir Pedrazza de Oliveira. O jovem árbitro estreou em 1985 num clássico regional que tinha, entre os atletas, o zagueiro Mano Menezes (ex-técnico da seleção brasileira).
Na trajetória como juiz de futebol, Taxa foi agredido, subornado e também errou em lances cruciais. Em contraste, apitou decisões marcantes sem falhas e colecionou inúmeras amizades.
Para ele, o sucesso com o apito só foi possível graças ao apoio da esposa Miriam. “Como estava sempre trabalhando, fui um pai muito ausente para meu filho Renan. Sorte que minha esposa sempre me auxiliou e compreendeu”, ressalta.

Em outubro de 2019, quase que a carreira de taxa é findada após uma fratura na perna durante uma partida de futsal. Entretanto conseguiu se recuperar e segue apitando até hoje. Aos 58 anos, não tem previsão para largar o apito. “Vou continuar enquanto as comunidades quiserem”, afirma em entrevista ao Agora no Vale.
Entrevista
Agora no Vale – Por que o apelido Taxa?
Taxa – Isso é coisa antiga de quando tinha três ou quatro anos de idade. Não sei nem como contar. Desde que me lembro de pessoa, já tinha o apelido.
Agora no Vale – Como foi o primeiro jogo que apitou?
Taxa – Nunca mais me esqueço do primeiro jogo na década de 80, pois me largaram direto no Regional. Era um clássico de Sebe de Boa Esperança (Cruzeiro do Sul) e Fluminense de Mato Leitão. Por incrível que pareça, o Mano Menezes era o quarto zagueiro do Fluminense. O jogo foi 1 a 1 sem erros da arbitragem. Eu era guri na época, então os mais experientes me disseram quando peguei a súmula que, ou eu arrebentava ou ia me ferrar. Por sorte fiz um bom trabalho e dali pra frente o meu nome explodiu.

Agora no Vale – Por que não se profissionalizou?
Taxa – Em 1994 estava com toda documentação para fazer um curso na federação. Mas tinha que ir todo o sábado para Porto Alegre. Eu era de família pobre, sem condições. A gente trabalhava de dia e de noite para ajudar a falecida mãe e não sobrava. Então por questões financeiras não consegui fazer o curso.
Agora no Vale – Um jogo marcante positivamente?
Taxa – Foi uma decisão do Regional em 1999. Eu era presidente da associação de árbitros (ARA) na época e o Moacir Mantovani presidia a liga (Aslivata). Na sexta-feira, o árbitro foi escalado, mas no sábado ele disse que não ia mais apitar. Eu e o Moacir fomos correr atrás do cara. Achamos ele num salão de bailes no interior de Teutônia. Mas ele manteve a decisão de não ir apitar. Ai o Moacir disse que eu era pra ir lá e arrebentar no jogo ou a gente ia se arrebentar. Era uma partida entre Floriano de Bom Retiro do Sul e Águia Azul de Fazenda Vilanova. O Floriano havia ganho o primeiro jogo da final e o Águia Azul ganhou o segundo. Aí foi para a prorrogação, onde o Águia Azul ganhou de 3 a 0 e ficou campeão. No fim, toda a equipe de arbitragem ficou na festa com os caras. Isso nunca acontecia.
Agora no Vale – Um jogo negativo?
Taxa – Também uma decisão de Campeonato Regional no campo do Águia Azul, em Fazenda Vilanova. A partida era contra o Juventude de Vila Arlindo (2004). Até os 38 minutos do segundo tempo, não havia dado nenhum amarelo no jogo. Quando levantei o primeiro cartão pro zagueiro do Águia Azul eu fui agredido pelo centroavante. Tomei um soco no supercílio e logo começou a sangrar muito. O pessoal dizia que eu não iria mais voltar. Mas fui pro vestiário, pedi para os massagistas fazerem um curativo para conseguir concluir a partida.
Agora no Vale – Como repercutiu essa agressão?
Taxa – Sai do jogo e fui direto pro hospital fazer ponto. Depois fui na delegacia fazer o boletim de ocorrência. Tinha um nome forte no amador e na segunda-feira o Joel Alves, da Rádio Independente, veio me entrevistar. Meu olho já estava fechado e preto como um carvão. Me deu um desespero e eu só chorava na entrevista. Foi muito chocante, mas o pessoal me deu muito carinho, pois não tenho inimigos. Foi a maior injustiça ter sido agredido.
Agora no Vale – Como conseguiu se consolidar na arbitragem?
Taxa – Eu comecei e logo fiz meu nome. Nunca fui de misturar a amizade dentro das quatro linhas. Me lembro que no passado havia muitos árbitros que se vendiam, mas eu nunca me deixei subornar. Acho que por isso meu nome é forte. Dizer que nunca errei é mentira. Mas nunca cai nessa onda de suborno. Vou morrer e ninguém vai ouvir que eu peguei dinheiro em algum jogo.

Agora no Vale – Você já foi subornado?
Taxa – Foram muitas tentativas. Uma que me lembro foi de um clube de Teutônia. Eles achavam que eu apitaria o jogo, mas nem era eu escalado. Então me chamaram para conversar na frente do campo velho do Lajeadense, no Florestal. Era inverno, um dia frio, então levei um gravadorzinho no casaco. Gravei tudo que ele falou e entreguei na mão do presidente da Aslivata.
Agora no Vale – Você disse que já errou na carreira. Tem alguma falha que se arrepende?
Taxa – Tem, foi um jogo de semifinal de Regional entre Esperança de Languiru (Taquari) e Arroio Alegrense (Forquetinha). O zagueiro do Arroio Alegrense cometeu um pênalti no Padilha, ele levou a vantagem, mas errou o gol e eu não dei o pênalti. Deveria ter marcado. No fim o time caiu fora.
Agora no Vale – Tem uma ideia de até quando continuará apitando?
Taxa – Várias pessoas já fizeram essa pergunta. Eu coloquei na minha cabeça que enquanto as comunidades me quiserem, vou continuar apitando. Eu tenho 58 anos, estou totalmente fora de forma, cheguei a parar por um tempo. Mas voltei e enquanto puder estar dentro de campo vou continuar apitando. Se alguém disser que chegou minha hora, vou parar com tudo. Quero fazer uma despedida convidando meus amigos e toda a imprensa.





