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Vídeo arranca sentimentos e acende alerta


Por Redação / Agora no Vale Publicado 20/05/2021
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Médico psiquiatra e psicóloga entendem que é preciso haver mais atenção para questões de saúde mental

O sentimento de pena pela mãe e filha logo após a colisão frontal na BR-386, em Lajeado, no início desta semana, foi substituído pelo ódio coletivo contra a mulher que, em vídeo gravado momentos antes, indicou que aquela seria a última viagem das duas. A gravação também causa espanto e incredulidade pelo impensável: uma mãe “convidar” a filha a morrer com ela.

Em depoimento, o caminhoneiro confirmou que a motorista de 42 anos jogou o carro contra seu caminhão, e a Polícia Civil já pediu a prisão dela pela tentativa de homicídio. A menina, de dois anos, sofreu apenas escoriações, enquanto a mãe, que deve perder a guarda, está internada em Canoas.

Psicóloga do Centro de Saúde Mental de Lajeado, Ana Julia Vognach observa que muitos de nós que assistimos ao vídeo somos pais e mães ou, mesmo quem não, há uma identificação e sensibilização com a criança. “Frente a isso, é muito compreensível o impacto emocional causado nas pessoas diante das falas proferidas pela mulher no vídeo. E está tudo bem sentir isso, mas cabe a nós saber o que fazer com esses sentimentos, lidar com eles sem que nos prejudique ou prejudique ao outro ou se vamos transformá-los em discurso de ódio”.

Para o médico psiquiatra de Lajeado, Bruno Lo Iacono Borba, o vídeo que afirma se tratar de um caso de tentativa de suicídio reforça a discussão sobre o problema que acomete 800 mil pessoas no mundo todo ano, em especial na nossa região dos vales: 17,2 suicídios por 100.000 habitantes (e não tentativas, que é subestimado).

Ele observa que o suicídio é multifatorial. “Não existe suicídio desencadeado por um único fator: como relacionamento, perdas financeiras ou perda de uma pessoa de referência por exemplo, mas se sabe que com certeza a pessoa estava com um grau significativo de sofrimento”.

Neste caso específico, diz, temos que separar a parte psiquiátrica, da jurídica, independente do sofrimento ou problemas psiquiátricos que a pessoa esteja passando. “O fato de levar consigo uma criança em um acidente premeditado é sim uma tentativa de homicídio”. Como exemplo, diz que um esquizofrênico que não recebe tratamento adequado pode apresentar delírios, alucinações auditivas – vozes que dizem para este “matar certa pessoa” e o crime acontecer. “Existem diversos relatos parecidos. Cada vez mais se mostra importante a sociedade como um todo estar olhando e entendendo melhor as questões de saúde mental, que ainda há bastante preconceito e estigma”.

“Não há uma causa única para o suicídio ou tentativa”

Em 2018, em Santa Clara do Sul, uma mulher de 37 anos matou suas duas filhas, de 3 e 7 anos, e depois cometeu suicídio, e assim como no recente caso de Lajeado, há indícios de que problemas relacionados a ex-companheiros tenham sido fatores determinantes. A psicóloga Ana, analisando estudos acerca da temática, evidencia-se que nos casos de suicídio e homicídio, a maioria dos homens mata suas mulheres e, ao passo que a maioria das mulheres mata seus próprios filhos.

No entanto, ressalta que é complexo haver uma interpretação sem escutar os sujeitos envolvidos, cada qual com sua história familiar, traumas e sofrimentos ao longo da vida. A psicóloga afirma que há muitos fatores internos e externos que podem desencadear um suicídio, como por exemplo, experiências de perdas por morte ou separação, perda de saúde e emprego, entre outros. Portanto, diz, não há uma causa única para o suicídio ou tentativa, mas um acúmulo durante a vida, de fatores constitucionais, ambientais, biológico, culturais e psicológicos. “Independente dos fatores, uma tentativa de suicídio evidencia um sofrimento emocional muito significativo”, ressalta.

Ana observa que estudiosos do tema referem que há uma diferença entre o desejo de morrer e o de se matar: a pessoa que se mata não quer morrer, mas deseja outra forma de vida na busca por proteção, amor, importância, consolo, vingança ou sua própria punição. “O desejo de se matar pode implicar na fantasia de vingança e agressão, como se após a morte pudesse visualizar o sofrimento, culpa e remorso causado às pessoas que ficam”.

Assim, afirma que tanto no caso de Lajeado como no de Santa Clara do Sul, as mulheres estavam em sofrimento emocional. “Todos nós temos conflitos psíquicos que nos acompanham da nossa infância e adolescência, construído a partir de relações familiares e sociais. Quando não os trabalhamos em psicoterapia e, nos envolvemos em situações relacionais que os ativam, nem sempre conseguiremos lidar com eles de maneira assertiva. Com isso não quero afirmar que todas as pessoas terão esse tipo de comportamento auto e heteroagressivo, mas que nem sempre conseguimos solucionar nossos conflitos da melhor maneira, potencializando sofrimento e causando novos conflitos”.

Superação através da escuta e do lúdico

A psicóloga entende que é muito delicado especificar o quanto isso pode impactar na vida da criança. “Todas as crianças que sofreram um trauma e estão em processo de luto podem ter reações emocionais como sensação de insegurança, abandono, medo de sofrer. Podem surgir sentimentos de tristeza, raiva, culpa”.

Frente a isso, diz, a questão mais importante e necessária é o acolhimento pelos demais familiares e o auxílio multiprofissional, com acompanhamento médico e psicológico. “A criança bem acolhida em suas demandas emocionais, através da escuta e do lúdico, estimulando a resiliência, poderá superar dificuldades, ressignificar vivências, sendo capaz de dar um novo sentido à vida”.

Procure ajuda

A prevenção do suicídio e promoção à vida deve acontecer para muito além da Campanha do “Setembro Amarelo”, é durante todo o ano. E essa reportagem também deve ser uma oportunidade para isso.  Caso você que está lendo, ou conheça alguém que esteja em sofrimento, com pensamentos suicidas, busque ajuda profissional na rede de saúde pública UBS, ESF, CAPS ou com profissionais da rede privada. Há uma solução para aliviar seu sofrimento que talvez neste momento você não esteja conseguindo encontrar sozinho e esse profissional irá te acolher e ajudar a resgatar o desejo de vida.

Texto: Leonardo Heisler

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