Safra recorde amplia desafio de proteger produção dos impactos climáticos

O lançamento do Plano Safra 2026/2027, com R$ 525,1 bilhões em crédito para a agricultura empresarial, ocorre no momento em que o Brasil se prepara para colher a maior safra de grãos de sua história. A combinação de crédito e produção recordes evidencia a força do agronegócio, responsável por 25,13% da economia brasileira em 2025. O desafio, porém, é ampliar a capacidade do setor de resistir aos impactos das mudanças climáticas.
A projeção da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) é de uma colheita de 358,6 milhões de toneladas de grãos. Ao mesmo tempo, boletim divulgado por órgãos federais aponta alta probabilidade de permanência do El Niño até o início de 2027, aumentando o risco de excesso de chuva no Sul e estiagem em parte do Centro-Norte, com potencial de afetar a produção agrícola em diferentes regiões do país.
Os impactos já são conhecidos em importantes regiões produtoras. No Rio Grande do Sul, perdas associadas à estiagem somaram R$ 117,8 bilhões entre 2020 e 2024, segundo estimativa da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul).
Segundo o especialista em energia limpa, transição energética e mudanças climáticas Eric Fernando Boeck Daza, o desafio do agro brasileiro deixou de ser apenas aumentar a produção. “O Brasil já mostrou que consegue produzir em escala global. Agora precisa reduzir as perdas provocadas por eventos climáticos cada vez mais frequentes. Produzir mais continuará sendo importante, mas proteger essa produção será decisivo para manter a competitividade do setor”, afirma.
Os efeitos, segundo o especialista, vão além das propriedades rurais. Levantamento da LCA 4intelligence mostra que quase três de cada dez reais da inflação dos alimentos registrada em 2024 tiveram relação com seca e chuvas fora de época. “Quando uma quebra de safra ocorre em um setor que responde por um quarto da economia, os efeitos chegam rapidamente aos preços dos alimentos, às exportações, à renda regional e às contas públicas”, explica.
Para Daza, o Plano Safra representa uma oportunidade para ampliar investimentos em irrigação, armazenagem, seguro rural e outras medidas capazes de reduzir perdas e aumentar a resiliência da produção agrícola. “A adaptação às mudanças climáticas precisa deixar de ser encarada como reação às crises. Ela deve fazer parte da estratégia de competitividade do agronegócio brasileiro”, conclui.






