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Rodoviária do Pessi: um ponto de chegadas, partidas, encontros, histórias e conexões


Por Redação Publicado 14/01/2022

Localizada na área central da cidade de Canudos do Vale, a tradicional rodoviária do Pessi, de propriedade do casal Diamantino e Lídia Girardi Pessi, guarda entre suas paredes mais do que pessoas e malas. São experiências e sonhos que estão entre os passos apressados daqueles que vêm e vão.

Entre tantas idas e vindas, Pessi se tornou uma personalidade, uma referência. “A maioria eu conheço por nome, vi crescer, constituir família, sair em busca de novas oportunidades. São tantas histórias”, destaca Diamantino.

Ele chega cedo. Abre às 5h30min e fecha somente às 10h da noite, de domingo a domingo. Para muitos é parada obrigatória, não apenas para comprar a passagem, mas para apreciar uma boa dose de cachaça de alambique, pura ou misturada com frutas e fazer um lanche. “É o xodó. Difícil alguém não experimentar. Como viajam de ônibus, não tem problema (risos).”

A seguir, Pessi, conta um pouco da sua história de empreendedorismo, as dificuldades e o crescimento da sua cidade natal a qual ajudou a emancipar.

Entrevista

Portal Agora no Vale – De onde vem a veia empreendedora?

Diamantino – Meu pai, João, era natural de Rui Barbosa, considerada uma das localidades mais empreendedoras do município. De lá saíram grandes empresários e hoje estão espalhados em todo país e até fora dele. Sou de uma família de 14 irmãos e cresci trabalhando na lavoura. E desde pequeno ajudei o pai na pedreira. A gente tinha garimpo de pedra preciosa. Era um trabalho árduo, mas com bom retorno financeiro. Até hoje temos a pedreira na comunidade, mas está desativada. Eu comecei a empreender aos 26 anos. Após me casar com a Lídia Girardi, junto com meu sogro, compramos a casa comercial do Pedro Zagonel. Além disso, viajava de caminhão e transportava frangos daqui até São Paulo e Manaus.

Portal Agora no Vale – Quando decidiu sair da sociedade?

Diamantino – Estava com problemas de saúde e não podia mais viajar. Daí decidimos que era hora de parar e iniciar em um novo ramo. Saímos de Rui Barbosa e compramos uma área no centro do município. Na época não tinha nada. Era tudo chão batido, poucas casas e a maioria das pessoas nem tinha carro. A agricultura, assim como hoje, era muito forte. Começamos com alguns engradados de cerveja e cachaça. Este aperitivo até hoje é popular aqui e todos tomam uma dose antes do almoço ou de noite. Mais tarde ampliamos o mix de produtos e passamos a oferecer também carne e demais produtos alimentícios. No auge chegamos a servir almoço para 200 funcionários de uma empresa calçadista.

Portal Agora no Vale – E a rodoviária, quando iniciou neste ramo que o tornou o mais famoso da cidade?

Diamantino – Em 1984. Na época, o Daer exigiu a construção de um prédio novo, dentro das normas e leis vigentes, com lancheira, banheiros e ponto de venda de passagens, tudo dividido e separado. Da cidade saíam três linhas de ônibus e diariamente eu vendia mais de 110 passagens. Era um movimento incrível de pessoas. Aqui não tinha nada, banco, mercado, farmácia, lojas e aí a única saída era viajar para Lajeado. Mas este encantamento pela cidade “grande” fez os jovens migrar, deixar tudo para trás em busca de mais oportunidades e tivemos um êxodo muito grande na década de 90. Hoje vendemos só umas 20 passagens e restou uma linha de ônibus. Só os idosos ainda viajam. A maioria comprou carro ou preferem comprar aqui, temos de tudo e nem vale mais a pena sair para outras cidades.

Portal Agora no Vale – O senhor foi um dos líderes emancipacionistas?

Diamantino – Sim. Eu como os demais líderes do município entendia que era uma alternativa para melhorar a qualidade de vida, trazer novos investimentos e conter a saída de famílias, principalmente dos jovens. Ficamos 10 dias em Brasília e só saímos de lá com a aprovação da criação da cidade. Foi uma vitória muito grande. Fomos recebidos como heróis. Depois disso tudo mudou. Hoje temos uma saúde exemplar, educação de qualidade, infraestrutura boa e oportunidades para nossos jovens ficarem aqui e empreender, principalmente na agricultura. No tempo que fui subprefeito no governo do prefeito Cláudio Schumacher, de Lajeado, iniciamos um projeto de instalação de aviários e chiqueiros de suínos. Isso garantiu a sucessão de centenas de propriedades, com renda, que é o quesito básico para ficar na agricultura. Depois da emancipação fui secretário de Obras e em um ano fizemos 21 terraplenagens. Hoje somos um dos maiores produtores de aves, suínos e ovos do Vale do Taquari e Estado. Tenho muito orgulho de ter participado da história de sucesso da nossa cidade.

Portal Agora no Vale – Como é a sua rotina de trabalho?

Diamantino – Eu chego cedo. Fico na rodoviária das 5h30min da manhã até às 10h da noite. Agora, com o movimento de turistas aumentando em função da nossa privilegiada natureza e pontos como cascatas, santuários e demais atrativos. Aos fins de semana o movimento é intenso. E todos me conhecem por Pessi da rodoviária. Aqui eles encontram de tudo, desde a tradicional cachacinha ao carvão para o churrasco ou mesmo o almoço de meio dia ou lanches. Nem passa pela minha cabeça parar de trabalhar, apenas tirar algumas folgas para viajar, mas para outros países. Minha vida é a rodoviária e os amigos que fiz ao longo da vida. E eles chegam cedo. Sempre tem uma boa conversa, uma risada, alguém conta uma novidade. Nossa cidade é conhecida pela hospitalidade. Recebemos todos muito bem.

Portal Agora no Vale – Gostaria de acrescentar algo?

Diamantino – Sim. Sempre fui empreendedor e acredito muito no potencial da nossa cidade. Eu já tenho uma certa idade, mas gostaria, se tivesse saúde e condições financeiras, de construir um hotel ou pousada, com infraestrutura completa para receber os turistas. Mas isso são projetos futuros e vamos ver se Deus permite realizar este sonho. Enquanto isso, a gente vai servir mais uma dose, dar boas risadas e aproveitar a tranquilidade.

Fotos Giovane Weber/FW Comunicação