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A sabedoria da transformação aos olhos de Monja Coen, no Teatro Univates


Por Redação / Agora no Vale Publicado 10/05/2019
 Tempo de leitura estimado: 00:00
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Mais de mil pessoas estiveram na palestra

Integrando a programação dos 50 anos de Ensino Superior no Vale do Taquari, na noite desta quinta-feira, 9, a monja budista Coen Rōshi esteve no Teatro Univates. Em torno de 1160 pessoas prestigiaram a fala da jornalista sobre a sabedoria da transformação.

“O autoconhecimento nos liberta. Se você diz que eu sou careca, eu não me ofendo. Eu apenas respondo ‘você enxerga bem, eu sou mesmo careca'”, brinca Coen. Segundo ela, trazer a prática do autoconhecimento à meditação é olhar para dentro de si mesmo e procurar as respostas. Acontece uma transformação pessoal, que precisa ser direcionada para o bem de todos os seres. “Precisamos pensar se aquilo que pensamos e fazemos está beneficiando um grande número de seres ou somente a mim. A vida é movimento, transformação incessante”, completa.

A monja defende uma cultura de paz e não violência. Para ela, vivemos em uma cultura de violência, por isso, traz respostas sobre como podemos transformá-la em uma cultura de paz. “Tendo respeito à vida”, responde. “Eu quero que os meus trinetos, tataranetos, enfim, vivam melhor no planeta Terra, com mais harmonia, respeito e equidade. Para isso, precisamos de mais sabedoria e compaixão”, explica.

Coen lembra que sentimentos negativos como ódio, raiva e inveja, estão presentes no cotidiano. Ela instiga como é possível crescer e sair desse lugar individualista e competitivo ocupado pelos seres humanos, para se ter mais compartilhamento e alegrias. “Precisamos criar uma cultura de paz. Não há paz sem justiça social, e não há justiça se não houver cuidado com a mãe terra e todos os seres que nos rodeiam. Nós somos a trama da existência. Quando nos tornarmos melhores cuidadores, talvez sejamos mais respeitosos uns com os outros, apesar das diferenças”, reconhece.

A monja budista afirma que o cérebro tem todas as sementes, de amor e ódio, por exemplo. Conforme ela, o que for regado, é o que vai nascer. “Somos sensíveis uns aos outros e nos contagiamos das energias. Se cultivarmos ódio, nada se constrói, é o processo de destruição de uma sociedade, país. É preciso que percebamos como isso nos provoca e como podemos dar uma resposta diferente, permitindo que outras manifestações venham”, declara.

Falar o que se pensa é essencial, de acordo com Coen. Para ela, ter pontos de vista diferentes é bom, para articular melhor o próprio pensamento, argumentá-lo, e quem sabe mudar de ideia. “Se eu tenho uma ideia e você tem outra, eu entrego a minha ideia a você e você me entrega a sua, assim ficamos com duas ideias. As pessoas brigam por ideias, mas precisam dialogar e compreender de onde elas vêm. Temos que conversar sobre política e religião, por exemplo. Não é sobre discutir quem ganha ou quem sabe mais, é sobre democracia, enriquecimento do olhar. A educação nos ensina a pensar e não no que pensar”, conclui.

“Inspiradora”. É a característica usada por Aline Crippa para definir a palestra da Monja Coen. Vinda de Guaporé, emocionada, a cabeleireira afirma que poderia ouvir a monja por mais duas horas. “Eu sigo ela nas redes sociais há dois anos. Minha vida mudou desde então, pois passei a enxergar as coisas de modo mais tranquilo. A vida está corrida e ainda assim eu desacelero. Os vídeos fazem com que eu viva o momento, esteja aqui e agora. É um exercício difícil, mas gratificante”, admite.

Pacto Lajeado pela Paz

Em sintonia com a palestra, o prefeito de Lajeado Marcelo Caumo recordou sobre o Pacto Lajeado pela Paz, que será lançado no final deste mês. “A monja foi a porta-voz do projeto nesta noite. Ela comunicou para essa multidão de pessoas a necessidade de desarmar a violência. É o que o programa procura, promover a cultura de paz”, conta.

Segundo ele, será feito um treinamento socioemocional nos ambientes escolares. “É algo que vêm acontecendo Brasil afora. Sem dúvidas será uma longa caminhada, mas estamos dispostos a iniciá-la”, finaliza.

Perfil: Monja Coen

Cláudia Dias Baptista de Sousa foi criada no Cristianismo. Com 71 anos, ela é budista há mais de 30. Conhecida nacionalmente, ela é a primeira mulher e monja de ascendência não japonesa a assumir a presidência da Federação das Seitas Budistas do Brasil. Além disso, a líder espiritual tem diversos livros publicados, é fundadora da Comunidade Zen Budista, criada em 2001, e tem milhares de seguidores no canal MOVA, no Youtube. Neste, divulga conteúdos sobre espiritualidade e vida cotidiana.

Confira a entrevista concedida para a nossa equipe:

O que as tradições contemplativas tem a dizer sobre o sofrimento e a superação do sofrimento?

Nada é fixo, nada é permanente. O sofrimento é opcional. A dor existe. Se eu der um beliscão em você agora, você vai falar “monja, isso dói”. Mas se depois disso você falar “coitadinha de mim, a monja me maltratou”, “eu sou uma pessoa tão legal, por que ela me beliscou?”, “é sempre assim comigo”, você está colocando uma flecha em cima de uma flecha. Já foi suficiente o beliscão, ou a dor da morte de alguém, o luto, a traição, o desencontro dos seus propósitos, daquilo que você encontra na realidade, enfim, isso tudo aí já dói. Você não precisa ficar cutucando ainda mais a figura. O sofrimento, na verdade, pode ser opcional. Eu posso ter dificuldades mas eu não preciso sofrer por causa delas.


2) Quais os benefícios que a meditação pode trazer para os estudos e a melhoria das relações dentro da academia e do mundo corporativo?

Um dos elementos da meditação é a plena atenção, chamada de mindfulness. Se você está presente onde está, você atua melhor. Se você está conversando comigo e pensando no antes ou depois, você vai se deparar com a questão “o que foi que ela falou mesmo? Eu não lembro mais”. Então é isso, ter a capacidade do foco, concentração, facilita estudar. Geralmente as pessoas vão estudar e estão pensando no namorado, vizinho, cinema, Facebook, Twitter. E aí falam: “eu fiquei estudando duas horas e não deu resultado nenhum”. Isso porque nessas horas a pessoa não fez nada, a não ser a sua mente que pulou de um lado para o outro. Agora, se você consegue focar no que você vai fazer, você vai ter uma produção mais rápida e melhor. Em algumas escolas, eles têm usado práticas meditativas quando os alunos entram em sala de aula. Em comunidades carentes, por exemplo, onde há muita violência e drogas, as crianças e os adolescentes chegam na sala de aula completamente perturbados. Então o que tem sido feito principalmente nos Estados Unidos, na Austrália e na Inglaterra, é concentrar um pouquinho e respirar. Se você veio com uma carga emotiva pesada, tudo bem, mas agora respira. Estamos aqui para aprender e estudar. Então pode ajudar no foco, na concentração e a ter mais leveza para lidar com os trâmites da vida pessoal e relações interpessoais. Nós sabemos que não são só nas comunidades mais simples e carentes que as drogas, abusos acontecem. Então, pode ser um elemento que facilita o processo educacional. Porque o autoconhecimento nos liberta. Preciso saber quem sou eu, o que sou eu, como funciono. E como eu uso isso que sou de forma melhor. Não é que eu viro outra pessoa. A gente diz que você tem que virar você, e tem que respeitar você, do jeito que é. E o jeito que você é não é fixo, nem permanente. Porque se fosse, não tinha Univates, nem escolas. “Eu sou do jeito que sou e pronto”. Não é assim. A gente encontra professores, pensadores, maneiras de ser diferentes, vamos nos modificando. O professor Mário Sergio Cortella, com quem fiz um livro recentemente, diz que ‘estamos grávidos de nós mesmos. Estamos nos auto gerando o tempo todo. E do que eu estou alimentando este eu que está se modificando?’. Isto é, quais livros leio, programas de televisão e rádio eu assisto e escuto. Quais conversas eu tenho, como eu uso a palavra, o pensamento. Isso vai me fazendo. Se eu não gosto, mudo. É fácil? Não. Temos hábitos e maneiras de ser. Aí se diz ‘eu vou mudar, mas eu não consigo’. Eu digo ‘tente outra vez. Continue tentando’. Eu não vou meditar porque eu vou mudar, mas vou fazê-lo pra me conhecer. Ao me conhecer, eu vou me usar da forma mais adequada. A raiva está lá no sótão, porão da casa. Às vezes, está na sala de visitas. Aí você diz pra ela que ela não é necessária. A minha raiva, não a do outro, porque eu sinto raiva. ‘Não preciso de você na sala principal agora, vai dormir’. E aí você entra de novo em harmonia. A pessoa sábia entende de que maneira pode influenciar e facilitar para que o maior número de seres fique bem. Não tem mais ação de luta. Pelo contrário, tem de despertar.

Texto e fotos: Natália Bottoni