Funcionária pública de Cruzeiro do Sul precisou empreender para custear tratamento de saúde e hoje colhe os frutos da escolha; produção artesanal caminha para se tornar uma pequena indústria familiar, o Mumuzeiro

A história do casal Andréia Schossler Lemos da Silva e Deonisio Lemos da Silva com a produção de doce de leite começou em 2016, quando ela teve uma trombose no braço, por conta de um tratamento de câncer de mama. O cateter que ficava no peito, para introduzir a quimioterapia no organismo de Andreia tornou-se o estopim do problema no braço. A dificuldade da trombose fez com que ela tivesse que deixar o serviço na Prefeitura de Cruzeiro do Sul.

Na época, foi o marido dela que começou a cozinhar o mumu (doce de leite) – receita de doce de leite da família dele, pois com Andreia afastada do trabalho, e a cada 15 dias tendo que comprar o tratamento para a trombose. “O médico dizia, precisa se este medicamento. Fizemos uma campanha entre familiares, amigos, meus colegas da creche. Fizemos um lote de doce de leite e vendemos”, recorda.

De pote em pote, o casal arrecadou o dinheiro necessário à época. O doce que precisa cozinhar de oito a dez horas, às vezes era a companhia do marido de Andreia, durante a madrugada. “Conseguimos arrecadar todo o valor. Depois que eu parei de tomar o remédio, paramos com a produção”, disse Andreia.

O tempo foi passando, de vez em quando os clientes pedindo. “Sempre que fazíamos um lote não sobrava nada”, acrescenta Andreia. O tempo passou, 2020 chegou com pandemia, afastando-a, de novo do trabalho. Em uma conversa o casal decidiu voltar a fazer o doce. “Queríamos fazer algo diferente, alguma coisa que chamasse atenção das pessoas, pois na época era um sucesso de vendas. Vinha algo que dizia para mim: faça caixas de madeira, crie uma embalagem diferenciada”, foram experimentos até que se chegou no nome – igualmente original. “Meu marido sugeriu: como somos de Cruzeiro, vamos colocar Mumuzeiro. Na hora eu achei feio, foi indo, que me acostumei.”

Ela ouviu a intuição. Seguiu o pensamento que dizia para fazer uma caixa de madeira reutilizada, com uma TAG diferenciada e o nome – original de fábrica de família. “Todo o processo é feito de forma artesanal, manual. Criamos as redes sociais para impulsionar a venda, para que as pessoas nos encontrem. Nosso produto é caseiro, um lote de oito a nove vidros leva de oito a dez horas, é tudo manual”, destaca Andreia.

Tarefas compartilhadas

Andreia revela que a receita é do marido, assim como a colher de pau, para produzir o doce. “Eu sempre trabalhei com as vendas, com o acabamento e tudo mais. Por fim, ficou pesado para ele fazer porque ele trabalha fora. Ele me deu o passo a passo para fazer e aos poucos eu fui assumindo a tarefa”, conta Andeira.

Hoje, o marido trabalha durante o dia. Andreia começa o cozimento do doce ao longo do dia e a finalização é com ele, no fim do dia. “O mérito da produção é toda dele. A partir de maio e junho que eu dei início na produção, mas a finalização é com ele.”

Andreia conta ainda com apoio dos familiares para executar a venda e entrega do Mumuzeiro. Como Rauzilito cantava: “sonho que se sonha junto, vira realidade”, assim a família toda participa da vida do casal cruzeirense dedicado a fazer doce para virar o jogo da falta de oportunidade, renda e dificuldade financeira. “Esta pandemia nos ensina a dedicar mais tempo para a família, para fazer as tarefas em conjunto. Mudou muito, mas para melhor. No começo tivemos muita angústia de como tudo ia ser, hoje já temos um novo olhar sobre nossas vidas e negócios.”

O Mumuzeiro

O produto é um doce de leite caseiro. Simplesmente caseiro, sem nenhum processo industrial, com uma produção artesanal – feita por lote, de no máximo dez potes – aprontado e vendido. “A tia do meu marido ensinou ele a fazer o doce, por isso, é uma receita de família. No começo, a gente fazia no fogão a lenha da casa dela. Demorava mais, até 14 horas. Fizemos adaptações para acelerar, para tornar o modo de preparo melhor. Este é o nosso ingrediente secreto”, conta. Regado com amor e zelo, ela não revela a fórmula de fazer o Mumuzeiro.

Andreia conta que não foi o casal que escolheu o produto. Para ela, foi Deus que lhe impôs às dificuldades da vida e acabou colocando o Mumuzeiro no caminho deles. Segundo ela, poderia ter sido qualquer produto, mas as forças das circunstâncias que a ideia veio, só pode ser um chamado divino. “Tivemos esta ideia durante uma das maiores dificuldades da nossa vida. Isso só pode se de Deus mesmo.”

Agora, os planos para o futuro devem levar a família de Andreia para uma produção em expansão. Seguindo um passo depois do outro, ela e o marido têm os pés no chão para continuar com o sucesso. “A gente tem muito claro que esta produção precisa continuar caseira, pois no momento que industrializarmos este processo ele não terá mais o mesmo sabor. Quero ter força para poder ficar mexendo a mistura de leite, açúcar e amor, o nosso Mumuzeiro.”

O futuro há de reservar muita vida e oportunidade ao casal. Deonisio toma para si a palavra e fala em pesquisa, em método. Em maneiras de operacionalizar uma pequena indústria e tornar o Mumuzeiro ainda maior. “Um dos planos é criarmos mesmo um negócio, com uma linha de produção, como uma empresa mesmo”, complementa o marido de Andreia.


Para experimentar o Mumuzeiro de Cruzeiro do Sul é preciso entrar em contato com o casal Andreia e Deonisio pelo perfil do doce, no Instagram: @mumuzeiro, ou pelo telefone 51 99576 8928.

por Rodrigo Nascimento / Redação Agora no Vale