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Abelhas sem ferrão: garantia de um ecossistema preservado


Por Reportagem Publicado 26/11/2021

Associação busca lei para regulamentar criação, venda e transporte das abelhas nativas

Um enxame representa perigo para muita gente. Centenas de abelhas protegem a rainha, os futuros filhotes e o precioso mel. Mas não há nenhum risco quando se trata de melíponas, espécies sem ferrão.

A maioria dos produtores começa por hobby e depois, com os resultados, investe em mais abelhas de espécies diferentes. Foi assim com Sérgio Krein, de Cruzeiro do Sul.

Apaixonado por abelhas, mantém no quintal da casa em torno de 90 enxames de várias espécies, com destaque para Mandaguari, Manduri, Mandaçaia, Mirim entre outras. A produção por colmeia varia de 50 gramas da Mirim Crisips, a 4 quilos das Mandaguari ou Tubunas.

No caso de Krein, onde o mel é colhido num intervalo entre 12 e 24 meses, a produção alcança até 20 quilos por ano. “O mel é muito saboroso e cheio de benefícios para a saúde. O aconselhado é deixar na geladeira, isso ajuda na conservação”, ensina.

Quanto aos cuidados, observa a temperatura do ambiente como determinante para as abelhas saírem do apiário em busca de alimento. As abelhas nativas maiores, como as Mandaçaias, saem para buscar pólen e néctar, numa temperatura acima de 10 graus, e as menores, como as Jataís, e as demais menores, a  partir de 22 graus.

“No inverno ficam dentro da caixa. Não forneço alimento, pois pode alterar o instinto e fazer com que o enxame morra.”

Reforça a importância das abelhas para o ecossistema e a produção de alimentos. “Chegam a responder por até 100% da polinização. O uso demasiado dos agrotóxicos aumentou muito e fica cada vez mais difícil preservar a atividade.”

Outro problema são as abelhas Iratim, mais conhecidas como abelhas limão. Elas largam um feromônio. A substância faz os animais não se reconhecerem e brigarem entre eles até a morte.  

Caixas de modelos distintos

Além de alojar as caixas em um sistema de ilha, todas elas possuem modelos e tamanhos diferentes. “Todas são experimentais. Quero identificar qual a melhor forma de alojar elas.”

Com este sistema, todas, mesmo sendo de espécies diferentes, ficam no mesmo espaço. “Não tenho visto brigas nos cinco anos em que optei por esta mudança.”

No pátio existe uma diversidade de plantas, as quais garantem boa oferta de alimentos. Como desafio, cita a necessidade de elaborar campanhas para auxiliar na preservação das espécies e legalizar a atividade. “A maioria está na informalidade. Estamos carentes de informação e isso prejudica o avanço.”

Diretoria trabalha para legalizar atividade e aumentar a oferta de mel para o mercado

Meta é legalizar a atividade

Este é o objetivo da Associação dos Meliponicultores do Vale do Taquari (AMEVAT). Coordenada pelo presidente, Nelson Angnes trabalha para regulamentar a Lei 14.763/2015, que dispõe sobre a criação, comércio e transporte de abelhas nativas.

“Por muitas vezes foi prometida a publicação da portaria, mas sempre esbarramos em dificuldades políticas. Encontram um motivo para adiar. Enquanto isto, nossos criadores trabalham na clandestinidade”, lamenta.

Segundo Agnes, um levantamento realizado pela Emater/RS-Ascar, aponta a existência de aproximadamente 40 mil apicultores, criadores de abelhas exóticas (com ferrão) e 16 mil meliponicultores, criadores de abelhas nativas (sem ferrão).

Estima existirem pelo menos cinco mil criadores no Vale do Taquari, muitos com uma ou até duas colmeias. Enquanto uns estão no anonimato, outros têm centenas de enxames. É preciso implantar a cultura da preservação da espécie.

Segundo ele, as abelhas nativas sem ferrão possuem uma função muito significativa na natureza. Principalmente pela polinização das plantas e manutenção dos ecossistemas agrícolas que produzem o alimento, além de produzirem um mel saboroso e rico em propriedades medicinais.

“É estimado que um terço da alimentação humana dependa diretamente da polinização das abelhas, que foram consideradas os seres vivos mais importantes do planeta terra”, ressalta.

Demanda crescente

Agnes destaca a procura constante pela produção por empresas as quais destinam a matéria-prima para o mercado nacional e estadual. “No máximo em três anos também passarão a comprar o mel dos meliponicultores. Precisamos estar preparados para atender a demanda. Por que nosso mel é muito superior em qualidade nutricional.”

Ele defende a criação de uma Associação Nacional de Meliponicultores, para reunir os criadores das associações estaduais e regionais. “Precisamos compor uma força nacional através de uma entidade para defender nossos interesses na esfera federal.”

Apesar da grande quantidade de produtos feitos a partir do mel, maioria dos produtores atua na clandestinidade